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Como funciona a magia em 7 Anciões

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Esse é um texto o qual eu havia escrito há um tempo em forma de prosa para poder explicar um pouco como funciona a magia no mundo de 7 Anciões. Ela existe e se faz presente, mas, as coisas não são tão simples quanto podem parecer. É uma conversa que ocorreu anos atrás entre uma jovem Forwën (Personagem central de um projeto maior denominado de “As Lâminas do Inverno” e o diretor da Universidade de Lenes, Aldous Herriot).

A história se passa em 1363, 58 anos antes do ano atual, que é o de 1421

Boa leitura!


 

Como Funciona a Magia

Gêneros: Fantasia, Ficção

Aquele certamente seria um dia agradável. Os sinos do templo da Grande Mãe repicavam indicando as Primeiras, ou seja, a hora do Sol. Assim, lentamente o dia se iniciava na cidade de Lenes. Os portões já haviam sido abertos e as vendas dos mercadores começavam a ser montadas, bem como já era possível ver carroças com suas rodas de madeira a resmungar através das tortuosas ruas da cidade e claro, os mendigos tomavam os seus postos e os bêbados dormiam às portas das tavernas. Lenta e preguiçosamente a luz do dia ia colorindo as casas e torres em um misto de amarelo e rosa até atingir o Palácio Real, que se erguia imponentemente na pequena colina que dominava o local. Sim, aquele seria um dia agradável.

            Mesmo estando naqueles primeiros dias de primavera, parecia que o inverno ainda se satisfazia em soprar um vento gélido de vez em quando apenas como um lembrete de que ele voltaria.

            Por isso, Aldous Herriot estava enrolado em uma grossa capa de pelo de texugo, o que não o impedia de tremer muito a cada lufada de vento, pois no alto do mirante em que se encontrava, sem ter algum obstáculo, o vento era terrivelmente implacável.

            – Vamos, tio Aldous! Quero ver a cidade acordando! – disse uma voz fina de menina jovem.

            Aldous não pôde deixar de sorrir ao se sentir puxado pela mão e olhar para baixo: uma impaciente menina de oito anos insistia para que o velho homem andasse mais rápido.

            – Calma minha criança, já estamos quase lá – respondeu.

            – Então eu vou na frente e espero pelo senhor!

            E lá se foi ela saltitante sobre as pedras de diferentes tonalidades que revestiam o piso, parando aqui ou ali para conversar com alguma estátua.

            Uma nova lufada de vento retirou o sorriso de Aldous fazendo-o trincar os dentes. Como é que aquela frágil menina conseguia? Oito anos já e o frio parecia não lhe incomodar, nem tampouco o vento, como se fossem velhos amigos.

            “Oito anos!”, pensou Aldous. Como o tempo passava rápido! Ele lembrava bem do dia quando a viu ainda bebê totalmente enrolada em panos e peles para que se protegesse do frio. Ao primeiro olhar, Aldous já suspeitara; aquela criança teria a aptidão para a Arte. Fato confirmado com os anos que se seguiram.

            E oito anos atrás Aldous já era um velho. Um velho e também um homem respeitado, afinal ele pertencia à antiga Ordem dos Magistrados: uma organização de sábios determinados a estudar e desvendar os mistérios do mundo e da criação. Os membros da Ordem em geral eram respeitados e temidos. Acima de todos eles, Aldous era o que mais despertava tais sentimentos afinal ele era o diretor da grande Universidade em Lenes e por isso detinha o título de Grão-Mestre Diretor. Aldous podia ser severo, sério e duro para com os seus alunos e subordinados, porém toda essa casca dura sumia quando se encontrava com a menina, pois seu carisma era capaz de enternecer até mesmo o mais duro dos corações. Se ao menos ela fosse uma garota comum como todas as outras… mas sua inteligência e sagacidade o surpreendiam a cada conversa, o que lhe dava enorme prazer.

            Aldous apertou mais o manto. Como Grão-Mestre ele tinha plena capacidade e controle para chamar o fogo, mas isso seria um uso leviano de suas habilidades e algo completamente inadmissível para um membro tão elevado da Ordem. Aquele frio era apenas um incômodo e nada mais que isso. Devia suportá-lo como qualquer homem comum.  

            – Depressa, tio! Você está perdendo! – gritou ao longe a menina, já na sacada do mirante.

            – Já estou indo. Tenha paciência com esse pobre velho, querida! – respondeu. – Não se aproxime muito da murada!

            Tio. Aldous sorriu internamente; a menina o chamava assim e ele se sentia verdadeiramente como se tivesse um grau de parentesco com ela. Então ele se virou para o palácio fortificado e contemplou suas torres amareladas pelo sol. Em cada uma delas tremulava orgulhoso o falcão branco descendente sobre o fundo verde e dourado da família Lainas. Há oito anos, Sua Graça o próprio rei Eadwig III lhe havia confiado a função de preceptor para a própria protegida. Por saber das reais intenções de sua majestade, Aldous cumpria a sua tarefa com zeloso dever. Desde que aprendera a falar, a menina lhe chamava carinhosamente de Tio Aldous.

            Finalmente ele chegou onde a menina estava. Debruçada sobre a murada do mirante ela jamais se cansava de fazer aquilo; tinha prazer em observar o despertar da cidade com os portões se abrindo e o fluir das pessoas enquanto entravam ou saíam de suas casas.

            Então Aldous sentou-se em um banco de pedra e esperou enquanto observava a menina. De aparência bem saudável e estatura mediana para a idade, sua pele era de um rosado pálido, até mais do que os padrões do povo keld, e os cabelos profundamente negros.

            Após um tempo, ela se deu conta que Aldous estava ali e se virou, saindo da amurada.

            – Tio, por que não me avisou que havia chegado?

            Aldous pôde observar bem os seus olhos, os quais possuíam um verde vivo cintilante.

            – Não quis lhe atrapalhar, pequena.

            Ela deu uma bufada impaciente, típico de crianças, e sentou-se ao lado do sábio.

            – Ahn… me desculpe, tio.

            Aldous sorriu e passando uma das mãos pelos cabelos da menina, falou:

– Hoje iremos nos aprofundar um pouco mais no assunto que conversamos da vez passada.  

            – Ah, vamos falar sobre a Grande Consciência agora?

            – Quem lhe disse isso? – perguntou Aldous atônito.

            – O vento me disse – respondeu a menina, e antes que Aldous pudesse replicar, ela continuou: – O que sei é que há uma Grande Consciência regendo o mundo. Ela é grande e poderosa e a gente não consegue ver ela, ou ele. O tio e os outros tios do instituto chamam ela de Consciência Universal também, não é?

            “A tal Consciência Universal criou tudo”, ela continuou, atropelando as palavras, “mas não se sabe ao certo como, porque vocês ainda estão estudando isso. O que vocês sabem é que Consciência teve um Sonho e a partir desse Sonho ela carregou o mundo como um bebê na barriga e então deu o nascimento a ele. Então o mundo carrega um pouco dela por ser seu filho. O mundo é um ser vivo que é alimentado pelas Deusas. O que as pessoas chamam de Arte é apenas uma espécie de com… comunhão (eu acho que a palavra é essa, né?), entre a gente e a Consciência, vindo das Deusas e do mundo. É por isso que o Tio e os outros tios estudam tanto, porque é difícil e até perigoso usar o próprio corpo para se… conectar? Com os deuses.”

            Aldous estava completamente pasmo. De onde a menina tirou tudo isso?

            – O vento lhe disse… não minta para mim, querida. Pode me dizer, foi Mestre Archenbald?

            – Não! Foi o vento, já disse – ela respondeu amuada.

            – Por Amanna, mas isso é… – Aldous subitamente parou. De fato aquela menina tinha o dom. Se ela falava a verdade, então a coisa mudava de figura. Aquele era um conhecimento avançado e o primeiro passo para abrir os olhos e as portas para o mundo.

            – Bom, sua explicação não está de todo errada – continuou Aldous, sorrindo ao ver o rosto da garota a fazer uma expressão de muxoxo por ser corrigida. Então ele se levantou e continuou. – De fato estudamos a Grande Consciência. Alguns o chamam de “o Um”, outros o chamam de “o Primeiro”, e assim por diante. Jamais em nossa história lhe demos um nome definido. Apesar de nossos estudos, o que sabemos é bem pouco, pois não existíamos àquela época. Você ainda é nova para entender direito, mas temos algumas teorias a respeito da criação do mundo por causa de alguns escritos de nossos antepassados. Infelizmente a maioria não passa de prosa literária com muitos floreios e exageros.  

            “Não, o assunto é muito mais profundo, minha jovem. Disse que sabemos pouco, mas o que conhecemos é que ela habita este mundo. Quando digo mundo, me refiro a toda a sua composição: céu, terra, pedras, árvores, rios… a lista é longa. Porém mais importante; a Consciência também habita em nós, uma vez que também somos parte dela. Por isso que ao aplicar a Arte, ou magika, nos conectamos com o mundo. Em um breve instante temos o domínio dos elementos tal qual uma divindade, afinal é a própria Consciência agindo. Como você mesma disse, é necessário muito estudo e cuidado, pois realmente nos conectamos com os deuses e se não o fizermos sabiamente, nosso corpo não suportará tanta energia. Muitas pessoas arrogantes sentiram isso duramente na pele.”

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            – Quer dizer – fez a garota – que nós também temos partes de deuses dentro de nós?

            – Exatamente. Todos nós temos canais de ligação com o mundo, a diferença é que alguns desses canais são mais abertos dos que os outros. E os motivos são vários, alguns podem tê-los por herança de algum parente distante; outros o desenvolveram ao longo dos anos e finalmente alguns simplesmente nasceram assim e pronto. Bom, em verdade falo apenas daqueles que conseguem utilizar a própria essência como condutor para se utilizar da Arte. Chamamos a isso de Alta Magika e alguns até a chamam de Magika Verdadeira.

            – Então existem outros tipos de magika?

            – Sim. E ouso dizer que até mesmo um leigo é capaz de se utilizar de alguns desses outros tipos. São elas a Magika Natural, Prática e Cerimonial.

            – E qual a diferença deles?

            – Calma menina, eu já ia chegar lá. A Magika Natural é mais praticada pelos seres que vivem do outro lado. Isto é, as criaturas Antigas, ou Encantadas. A diferença entre esse tipo de magika e a nossa é que a deles é mais primordial, mais primitiva. Também é conhecida por ser uma espécie de magika que parte da própria essência deles. Lembra da conexão com o mundo? A deles é extremamente poderosa, pois eles são essencialmente seres moldados e dependentes do mesmo.

            – As lendas são de verdade? Eles existem?

            – Sim – respondeu Aldous um pouco hesitante – não tenho como confirmar tudo, mas, algumas dessas lendas sim. Dos elfi e anani você já ouviu falar. O que poucos sabem é que eles se isolam primeiro por formarem suas próprias comunidades com leis e costumes próprios independentemente dos nossos; e segundo, e mais importante, porque eles atuam como guardiões das fronteiras do Outro mundo. A maioria das histórias entretanto é apenas contos de fada e não nos interessa no momento.

            “Como eu ia dizendo, eles são criaturas moldadas a partir dos elementos naturais de nosso mundo. O que não queira dizer que nós mesmos não somos também. Acontece que eles estão mais presos a eles do que nós. A única exceção, seria aqueles que vivem em Reinos diferentes.”

            – Reinos? Como Lehainas?

            – Não. É um pouco complicado explicar para uma criança como você, mas nós estudiosos, chamamos de Reinos aqueles lugares que estão a parte de nosso mundo, porém com suas próprias leis e regras naturais. Como por exemplo: se aqui você pula deste mirante, você irá cair e se espatifar no chão, certo? Em alguns desses lugares você pode saltar e demorar a descer, ou simplesmente não cair. Em outros talvez seja impossível respirar, ou o leste é o oeste e vice-versa… a lista é longa e ainda há muito a ser descoberto.

            – É…acho que entendi um pouco.

            – Não se preocupe. Isso é assunto para discutirmos futuramente. Voltando às criaturas encantadas, esses são os segredos deles e é muito raro ensinarem suas práticas a algum mortal. Aqueles que tentaram estudar a fundo, ou desapareceram ou acabaram loucos. Apenas um número bem reduzido provavelmente conseguiu dominar algo e mesmo assim, sob forte juramento de não repassar o conhecimento a ninguém. E, pelas deusas! Criança, você nem pode imaginar o poder terrível de um juramento. Também existem poderes antigos, alguns tão antigos quanto o próprio mundo e até mesmo eu sendo um estudioso, sei que esses poderes não devem ser perturbados.

            – Acho que ouvi o tio falando disso com alguns noviços, mas, o tio conhece alguém que aprendeu essa magika e não ficou doido?

            – Em verdade, conheço sim. Duas pessoas, mas não falarei delas no momento.

            – Por causa do juramento?

            Aldous sorriu.

            – E é por isso que gosto de meninas espertas. Sim, como você adivinhou rapidamente, estou preso a um juramento.

            -Tá bem – fez ela resignada – e as outras magikas?

            – A Magika Prática e a Cerimonial você já chegou a ver. A Prática é bastante simples e mesmo pessoas ingênuas podem fazê-la. Nós a chamamos de Simpatia para iniciantes. Trata-se de magika mundana, como a praticada pelos velhos curandeiros para curar verrugas e dores de barriga, ou quando uma donzela deseja atrair a pessoa amada para si, dentre outros. Apesar do preconceito, ela é bem importante pois nós nos valemos de um conceito importante utilizado na Magika Prática: o uso do poder da mente. Temos que nos concentrar fortemente naquilo que queremos para abrir os canais dos quais lhe falei antes. Pode-se até dizer que a Magika Prática é o primeiro caminho para se chegar à Alta Magika. É claro que ainda assim, as pessoas têm medo dessas práticas.

            “Finalmente temos a Magia Cerimonial. Esta é mais intrigante, pois pode tanto ser simples até extremamente complicada, sendo essas mais facilmente, de forma lamentável, acessível a leigos. É o tipo de magika que pode ou não servir-se de um canal e é também chamada de Magika Ritualística. O próprio nome já fala da natureza desse tipo de prática. É aquela que vai exigir como canal alguns objetos ritualísticos, a pronunciação de fórmulas corretas, uso de palavras e algumas até mesmo lugares específicos e tempo do dia apropriado. Se feita erroneamente, pode trazer consequências terríveis para o praticante.”

            – Sei – fez a garota – então deixa eu ver se entendi. Tem a Alta Magika que é aquela usada por nós em… conexão (é assim?), com o Mundo e a tal Consciência. Aí temos a Magika Prática, Mundana ou Simpática, que é aquela feita por iniciantes e até mesmo algumas pessoas comuns e é o que os noviços estudam aqui para aprender a abrir os canais; depois temos a Magika Natural, que é semelhante a Alta Magika, sendo mais antiga, mais poderosa e usada pelas criaturas dos outros mundos e finalmente a Magika Cerimonial ou Ritualística, que é feita por rituais que podem ir de simples a complicados. Acertei?

            Aldous deu mais um forte afago nos cabelos da menina, assanhando-os e disse:

            – Certíssimo, minha filha. Eu não poderia fazer melhor. O que sabemos ainda é que tudo é ligado à Consciência, pois todos os mundos se conectam a ela. Também, outro ponto em comum a todas elas é que temos os Quatro passos da magia. Essa é uma lei absoluta que todos devem seguir. São elas: Conexão, Unidade, Formação e Execução. Na Conexão, é quando abrimos os canais e nos unimos ao mundo e às energias que abundam o nosso ambiente; Unidade é justamente quando conseguimos nos tornar um único indivíduo. É a questão da comunhão com a Consciência. Aqui nós nos tornamos em uma escala bem menor, e por apenas um breve instante, a própria Consciência; A prática da Formação, ocorre quando moldamos o nosso pensamento uma vez que agora somos Consciência. Encare essa parte como quando um arquiteto projeta uma edificação. É nessa hora que nossa mente age como o arquiteto. Finalmente na Execução, fazemos o papel do construtor: simplesmente pegamos o projeto feito pela nossa imaginação, e, juntando os materiais necessários, executamos a obra. 

            A menina estava boquiaberta. Era muita informação de uma vez só para digerir.  

– Eu estava pensando nos canais. Será que os meus são abertos? – disse.

            – Os seus? – Aldous riu e tocou com o indicador na testa da garota – Sim, os seus são bem abertos, mas apesar disso aparentemente ser uma benção, também pode ser uma maldição.

            – Como assim?

            – Aqueles cujos canais são bem abertos, estão propensos a acordar a Grande Consciência e realizar alguma ação involuntária podendo assim se machucar ou até mesmo machucar os outros. É por isso que muitos jovens são enviados para estudar em nossa Academia ou em outras do tipo espalhadas pelo mundo. Temos um código restrito de utilizar a magika apenas para estudos e compreensão do mundo ou para ajudar aqueles necessitados, porém nunca para exibicionismo ou egoísmo, como… algumas pessoas fazem por aí, afinal ela pode ser algo bastante instável em mãos imprudentes ou cruéis. Enfim, nosso objetivo é para com o estudo dos belos mistérios da Criação.

            – Mas… devem haver algumas pessoas más fazendo maldade com a magika, não?

            Sim, infelizmente existem – Aldous suspirou. – São pessoas que de certa forma aprenderam a controlar um pouco da canalização da Consciência ou, pior, pessoas que usaram o conhecimento adquirido em alguma universidade para o mal. Seria ótimo se pudéssemos ter o controle das ações de todos os estudantes que passam por nós, mas isso é impossível e até mesmo antiético. É sempre assim com os jovens talentos; acham que podem dominar tudo e fazer o que bem entender. Muitos acabam mal.

            – Eu… nunca serei assim! – exclamou a menina se levantando.

            Aldous a abraçou.

            – Você falou com o seu coração. É claro que isso jamais acontecerá com você, querida. É por isso que você está aqui conosco: para aprender com sabedoria. Tenho a certeza que um dia você se tornará uma Grande Sábia.

            Então ele deu a mão à garota e disse:

– Bom, agora que você viu a cidade acordar, vamos para dentro do palácio? Tenha paciência com esse velho, não tenho a sua resistência ao frio.

            Mas a garota já havia soltado sua mão e já ia longe, saltitando feliz.

            – Depressa tio! Você vai perder o café-da-manhã!

            Aldous suspirou e sorriu.

            Sim, aquele seria um dia agradável.

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