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Inocência – O prólogo (Kyrie Eleison)

Boa noite à todos.

Como alguns sabem, Inocência além de quadrinho, também está sendo escrito em forma de livro.

Enquanto o quadrinho piloto e consequentemente o quadrinho definitivo não saem, lhes deixo a oportunidade de ler o prólogo da história.

Abaixo vocês poderão conferir o texto, o qual já foi escrito e reescrito por diversas vezes, porém não se preocupem: a ideia geral está aí. Caso eu mude algo, será apenas na parte técnica.

Então, no mais, boa leitura!

Nota: Caso você queira acompanhar o quadrinho, o texto abaixo conterá spoilers.

Nota2: Essa é uma obra de ficção e deve ser tratada como tal. Porém, o conteúdo do texto pode ser perturbador para alguns. Texto recomendado para pessoas acima de 16 anos.


INOCÊNCIA

PRÓLOGO – KYRIE ELEISON

Gêneros: Ficção, Horror, Terror, Drama

A menina estava confusa.

             Ela não sabia ao certo onde estava; o ambiente ao seu redor permanecia embaçado e envolto pela penumbra. Tudo o que podia distinguir eram três pequenos pontos amarelos e brilhosos situados bem a sua frente e que as vezes pareciam dançar em um ritmo cadenciado. Havia também a sensação táctil. Por estar descalça ela podia sentir os seus pés congelando sobre o frio piso de granito.

              Ao se lembrar da sensação de frio, ela estremeceu. Estava quase que completamente cega pela escuridão tendo apenas as três luzes a frente como guia tais quais os antigos faróis para os navios. A menina procurou tatear algo ao seu redor e nessa empreitada teve sucesso, pois lhe pareceu tocar algo que a seu ver era feito de madeira. Realizando um rápido exame sensorial logo a garota chegou à conclusão que o que ela tocara era uma espécie de bancada.

               Um pouco mais confiante por causa dessa pequena descoberta ela arriscou um passo para frente em direção as luzes, depois outro, e mais outro, e assim sucessivamente. À medida que andava, as imagens à frente iam ganhando um pouco mais de nitidez, as quais a menina descobriu ser de um castiçal de três velas. Enquanto se locomovia, ela ouvia diversas vozes cantando em coro por várias vezes: “Kyrie Eleison, Christe Eleison, Kyrie Eleison”.

              – Quem está aí? – Perguntou assustada. Virou-se para um lado e para o outro a procura desses sons, porém apenas encontrou o vazio. Então uma voz grave, advinda da direção das luzes, fez-se ouvir:

             – Aproxime-se, menina.

            Mais assustada ainda com a gravidade dessa nova voz, ela novamente se virou em direção às velas. Temerosa, se aproximou devagar. Agora o resto estava mais nítido; as velas estavam em cima de um provável altar de igreja: além do castiçal havia uma cruz dourada, um livro (provavelmente uma Bíblia) e um cálice com detalhes em ouro. Por debaixo destes objetos estendia-se um belo pano vermelho com detalhes dourados nas pontas.

             Apesar da beleza de tais objetos o que mais chamou a atenção da menina foi a silhueta de uma pessoa atrás do altar. Provavelmente fora aquele que lhe dissera para se aproximar. Pelas formas e pelo tom de voz, era a forma de um homem de grande estatura. Seu rosto estava completamente envolto pela escuridão e as suas mãos, postas sobre o livro eram de alguém já calejado pela idade, bastante nodosas. No dedo anular da mão direta, repousava um anel de ouro.

             A garota parou diante do altar sem pronunciar uma palavra. Tampouco piscou, limitando-se apenas a controlar a respiração enquanto procurava distinguir quem era a figura oculta pelas trevas. O homem por sua vez também permaneceu calado a observar a menina. Ao contrário desta, ele podia vê-la claramente: uma pequena menina por volta de seus dez anos, magra e com um vestidinho azul um pouco sujo. Seus lisos cabelos eram longos e belos, apesar de bastante assanhados e cuja cor castanha era ofuscada pela fraca iluminação; o que mais lhe destacava, porém, eram os seus verdes olhos penetrantes que agora claramente demonstravam inquietação e temor.

              O homem pegou o castiçal e o ergueu. Com isso a menina pôde ver que ele estivera sorrindo. Também reconheceu a figura de um dos padres que cuidavam da instituição que ela habitava: O orfanato cristão. Na verdade, este era o principal padre responsável pelo local, agora facilmente reconhecível pelo grande crucifixo de prata em seu peito.

             – Padre Thomas? – ela balbuciou ao reconhecer a figura.

             – Ajoelhe-se, minha criança – ele disse pousando novamente o castiçal na mesa.

              A menina obedeceu e assim ficou, prostrada de joelhos perante o altar. Nesse instante as vozes que cantavam o Kyrie Eleison, foram silenciando aos poucos.

            – Kyrie Eleison, Christe Eleison, Kyrie Eleison – recitou padre Thomas. – Você sabe o que isso significa criança?

            Ela assentiu e disse com uma voz fina:

            – Significa Senhor, tende piedade; Cristo tende piedade; Senhor tende piedade.

            Padre Thomas aumentou ainda mais o seu sorriso ante a esta resposta. Sim, a menina estava correta.

            – Muito bem, minha criança. Vejo que você aprendeu corretamente. Essa é a resposta correta – ele fez uma pequena pausa e continuou – E por que você pede perdão ao Altíssimo, criança?

            A menina parecia estar em um estado de transe. Ajoelhada, ela nem sentia mais a rigidez do chão em seus frágeis joelhos; apenas esfregava as mãos como meio de se aquecer ou talvez em um sinal de nervosismo. A cada vez que falava, um fino vapor saía de sua boca devido ao frio. E nessa hora, o cântico de outrora, executado pelas vozes invisíveis recomeçara em tom baixo, mas ainda assim audível.

            Agora ela piscara os olhos um tanto quanto confusa pela indagação do padre. Procurou então dar a resposta óbvia:

            – Eu não estava pedindo perdão, eu estava apenas respondendo a sua pergunta, padre Thomas.

             O sorriso na boca do padre desaparecera.

            – Resposta errada, criança, resposta errada. Você pede perdão porque é uma pecadora. Diga-me, que pecado você cometeu?

            Ainda mais aturdida ante a resposta do padre, ela procurou justificar-se:

            – Mas, eu apenas… – Porém, não chegou a terminar a frase. O padre erguera de forma brusca a mão direita como sinal para que ela se calasse. No segundo seguinte, ele novamente tomou o castiçal em sua mão esquerda e o ergueu acima da cabeça. A luz proveniente das velas iluminou uma figura de Cristo entalhada em uma cruz de madeira atrás do padre.

            – Está vendo? – Ele disse – lembre-se de que ele te observa e um dia você terá que responder sobre seus atos perante ele.

            – Eu não fiz nada padre, eu juro! – A menina replicou com voz chorosa.

            – Será? – O padre treplicou com uma voz severa ao mesmo tempo em que baixava o castiçal a uma altura menor e saía de sua posição, andando em direção à menina. – Todos pecam, minha filha. Mesmo você sendo ainda uma pequena mulher, carrega o pecado junto de si.

            A menina, ainda ajoelhada, observou o padre se aproximar lentamente. Enquanto isso, o cântico ainda era entoado: Kyrie Eleison, Christe Eleison, Kyrie Eleison.

            – Eu não fiz nada! – Ela gritou.

            Ele nada disse, apenas tocou com firmeza nos ombros da garota com a mão livre, deslizando-a lentamente para o rosto dela. A outra mão pousara o castiçal no chão. A menina estava paralisada, incapaz de esboçar qualquer reação. Ela saíra de um transe para cair em outro.

            – P-padre, o que está fazendo? – Ela perguntou assustada. Sua mente não conseguia compreender o que estava acontecendo nem o porquê do padre Thomas estar agindo daquele jeito. Ela tentou se desvencilhar, mas ele a empurrou para o chão com um pouco de força.

            Antes mesmo que pudesse esboçar alguma reação, ela estava ali, deitada, totalmente à mercê daquele homem que agora segurava com mais firmeza ainda os seus finos braços, causando-lhe um pouco de dor. Apavorada e sem compreender nada, ela procurou olhar no rosto do padre, e o que viu, deixou-a ainda mais aterrorizada.

            O rosto do padre Thomas estava completamente diferente. Suas feições estavam bastante severas e endurecidas, enquanto que seus olhos estavam esbugalhados parecendo estar envoltos pelo fogo. Seu rosto, tão normalmente sereno, parecia tomado pela indignação e raiva, o que lhe conferia uma tom diabólico. Formas escuras saíam aparentemente de suas costas tomando a aparência de horríveis asas negras de fumaça.

            – Será mesmo que não fizeste nada criança? – Ele falou em um tom de voz esquisito e arquejante. E eis que de súbito, ao proferir estas palavras, seu rosto tomou uma expressão de bastante tristeza.

            Por um bom tempo eles permaneceram assim: ela deitada com o padre bem próximo a fitar-lhe o rosto bastante atento e agora com as duas mãos em sua face. Parecia a cena de uma cobra a enfeitiçar a sua presa momentos antes do bote. Seu corpo doía e o peso do padre lhe machucava, além disso, o chão estava cada vez mais frio. A mente da menina tentava entender a situação, mas ela não conseguia pensar em nada. Era como se algo estivesse bloqueando os seus pensamentos assim como os sentidos ou como se várias cenas confusas estivessem passando à sua frente.

            – Por que… Minha filha? – De repente, ele cortou o silêncio com a voz embargada – O que… fizeste… comigo? – Sua voz estava ainda mais triste e melancólica. Então ele virou um pouco o rosto e disse – Veja bem. Olha atentamente.

            Ela nada respondeu, pois ainda não conseguia compreender o que estava acontecendo. Então sentiu o pingar de uma gota, depois outra e mais outra. Saindo de seu torpor ela notou o que o padre queria dizer: o crucifixo dele não estava no lugar de sempre. Prestando mais atenção ao mesmo tempo em que passava a mão no rosto dele ela viu: em seu pescoço estava cravado o crucifixo quase que por inteiro e o sangue, proveniente da perfuração, pingava na garota tingindo de um carmesim vivo o seu vestido que misteriosamente agora estava bastante rasgado em algumas partes.

            Gritando de horror, ela empurrou o corpo do padre para o lado fazendo-o cair próximo ao castiçal. Neste momento o cântico cresceu ainda mais em tom. Completamente enojada com a cena, ela recuou vários passos para trás.

            Por um tempo, ela ficou olhando para o corpo caído no chão e teve que fazer um enorme esforço para não vomitar. O crucifixo saíra do pescoço e pendia todo ensanguentado sobre a poça de sangue que ia se formando. Ela olhou para as suas mãos e as viu também completamente banhadas por sangue. Novamente paralisada, ela permaneceu fitando-as como se a característica cor vermelha do sangue lhe hipnotizasse. De súbito, um estalo. O fogo da vela do castiçal de alguma forma tocara o padre, agora incendiando o seu corpo e depois, em questão de segundos todo o ambiente. As chamas passaram a dançar com mais vontade ainda, iluminando todo o lugar. O local era uma pequena capela como essas capelas modernas que procuram imitar o estilo românico e seus arcos plenos em todos os vãos, porém também com imitações de vitrais nas janelas e piso de granito claro no chão. Pequenas colunas de madeira sustentavam o telhado e claro, nas laterais da nave da capela, estavam os bancos. Enfim, rapidamente toda a estrutura estava em chamas e no centro delas, estava a menina que finalmente parara de olhar para as mãos. Agora ela apenas contemplava o incêndio sem esboçar qualquer reação. Assim como ela, o Cristo no crucifixo pendurado atrás do altar também parecia contemplar a cena. Os olhos da menina se encontraram com os olhos da imagem esculpida. Os olhos do Cristo denotavam tristeza, os dela, ausência de emoção, porém dardejando fortemente a luz proveniente do fogo, o que lhe conferia um brilho sinistro.

            Até que as chamas engoliram tudo.  

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            De novo, imagens passaram à sua frente em um borrão confuso e então, ela se viu do lado de fora contemplando tanto a capela da qual estivera momentos antes, como todo o orfanato pegando fogo. À sua volta, diversas pessoas corriam desesperadas numa profusão caótica entre freiras, voluntários e as outras crianças.

            Assim como lá dentro, ela observava a cena sem a menor reação. Seus olhos estavam fixos na dança das chamas. Muitas pessoas choravam e havia muitos gritos desesperados também. De repente um alto som de buzina e sirene fez-se ouvir: eram os bombeiros que agora chegavam para apagar o fogo.  

            A garota apenas contemplava friamente a cena. Ela não estava mais confusa. Agora sabia perfeitamente o que acontecia e onde estava. Seus ouvidos escutavam atentamente o som. Não os gritos, choros e sirenes, mas sim, o cântico que agora estava ainda mais alto e forte do que antes: Kyrie Eleison, Christie Eleison, Kyrie Eleison. Seus olhos verdes brilhavam intensamente de modo que pareciam flamejar.

            A menina agora estava sorrindo.          

 

 

 

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