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O Negro, O Branco e o Vermelho (Parte 1)

Olá a todos!

Segue abaixo mais um texto, desta vez relacionado ao universo de 7 Anciões. Este é um conto infantil, o qual venho escrevendo há um tempo.

A história trata de uma jornada através das chamadas Terras do Povo Antigo, empreendida por uma jovem criatura da Luz junto de uma criatura do Caos para encontrar a redenção de uma perdida alma errante. Também é uma jornada de autoconhecimento tanto da parte espírito da luz quanto da criatura do caos.

Escolhi esse para ser o primeiro conto de 7 Anciões pois mesmo sendo infantil (ou infantojuvenil), ilustra um pouco do clima do mundo: A fantasia está lá, mas ela não é tão colorida assim. 

Esta é um conto dividido em partes, as quais serão adicionadas aos poucos por aqui.

Por fim, feedbacks são bem recebidos. Espero que você tenha uma boa leitura!


O Negro, o Branco e o Vermelho

Parte 1

Gêneros: Fantasia, Dark Fantasy, Infantil, Aventura

Lami corria alegre e despreocupada pela macia relva da floresta quando o chamado a atingiu como um relâmpago.

   Quase tropeçando pelo susto, ela se recompôs a tempo. Agora, deslizando suavemente pela grama, procurou por uma grande pedra sobre a qual poderia sentar-se.

   Ali se quedou por um breve período a pensar na mensagem que acabara de receber. Por fim, decidiu que deveria ir, afinal era o seu dever e propósito.

   Enquanto prosseguia, pensou no que deveria fazer. Lami era bastante jovem e ainda um pouco inexperiente, então não sabia direito como deveria agir e isso a apavorava um pouco. Por outro lado era a oportunidade que sempre havia pedido em pensamentos.

   Acontece que Lami era um espírito da Luz. Neta do Sol, filha da grande Deusa Mãe e serva do Rei das Alturas. Sua função era a de afastar a escuridão do caos e trazer a luz à terra, sendo também responsável por manter o equilíbrio entre a passagem da noite para o dia e vice-versa; finalmente há outra função que é a de por ordem àqueles espíritos sombrios que perturbam o Equilíbrio, o que não necessariamente incute em uma guerra, mas sim, apenas a manutenção da ordem universal. Geralmente espíritos da luz são ariscos e brincalhões, mas também bastante sérios em relação às suas tarefas. Eles podem assumir diversas formas apesar de que a que mais preferem é a de seres humanoides radiantes e luminosos.

   Apesar de todas essas honrosas responsabilidades, Lami era um espírito jovem ainda em formação e diferente dos demais, e por isso hesitava. Era até mesmo mais desconfiada que os seus irmãos e, por um momento pensou em recusar a tarefa e passa-la a um companheiro o que iria contra a sua essência. Portanto, se recebera a mensagem é porque deveria estar apta a fazê-lo. Ainda que quisesse desistir, sabia que não havia nenhum dos seus por perto naquelas redondezas.

   Imersa nesses pensamentos ela ia saltitando pelas pedras. Sua apreensão vinha do fato que teria que adentrar uma região chamada simplesmente de Pântanos Sombrios, nome este que não era ao acaso, afinal era conhecida por abrigar alguns seres do Caos. Sua missão era justamente a de conter um espírito do tipo e Lami jamais havia visto um deles.

   Em uma dada hora ela parou para verificar os arredores. A floresta em que se encontrava era composta por densas sequoias imponentes, o que não impedia a luz dos raios solares de perpassarem pelas folhas e iluminarem Lami. Em seu íntimo ela sabia que estava nos limites da floresta e que iria adentrar a temida região.

   Como em resposta a seus devaneios, um vento gélido soprou em si fazendo-a arrepiar-se. Esse vento não era como aqueles em temperaturas baixas, mas sim, quase algo palpável e com uma sensação de viscosidade.

   – Terei que adentrar neste local imundo? – pensou em voz alta.

   Lami não conhecia bem aquela determinada região. Afastara-se um pouco de suas irmãs por desejar estar sozinha e porque algo lhe havia compelido a recuar e a caminhar pelas terras. Espíritos da luz podem viajar a velocidades impressionantes sem nem mesmo precisar tocar o chão, Lami por sua vez gostava bastante de sentir a relva sob o seus pés e de observar com calma a paisagem a seu redor.

   Apesar de jovem, ela não era tão ingênua assim: sabia que na terra do Povo Antigo as vezes um pouco de cautela não faria mal. De modo que o leitor entenda: as chamadas Terras do Povo das Fadas, Terra dos Antigos, Terra dos Seres Encantados ou simplesmente “O Outro Lado”, são vários locais à parte do nosso como se fosse uma antítese do mesmo. Muitos elementos naturais que habitam do lado de cá se refletem no lado de lá e vice-versa. Em outras palavras é como se fosse um mundo espelhado do mundo comum e cujas partes estão interligadas umas com as outras. Aqui vivem várias criaturas fantásticas, mas a maioria prefere permanecer oculta e foge à menção de algum contato com o mundo exterior, já outros se arriscam a se aventurar pelas terras Mundanas e até se dão bem com os humanos, gerando algumas histórias fantásticas e contos de fada. Finalmente há aqueles que são curiosos e preferem observar à distância e aqueles que são hostis ou inocentemente cruéis. Verdade seja dita, muitos são até mesmo reverenciados como divindades, pequenas e grandes, os quais alguns realmente o são.

   Assim como nos reinos humanos, o Mundo do Povo Antigo também é formado por diversos reinos, cortes, políticas e alianças. A diferença é no modo como eles veem todos esses conceitos. Até mesmo Lami não era tão livre assim, pois estava submetida às leis do Rei das Alturas: um espírito tão velho quanto o mundo e imponente em seu esplendor.

   Lami podia não conhecer bem a região por jamais ter ido tão longe, mas sabia como se guiar por ela por causa dos mapas que já vira. E então corajosamente impeliu o seu corpo para frente de modo a adentrar mais a fundo.

   Enquanto caminhava cautelosamente, a floresta ia perdendo cor; se antes na floresta das sequoias predominavam luzes rosadas, verdes e azuladas, agora tudo o que restava eram tons negros e cinzas. A luz que irradiava de Lami ia diminuindo e os raios solares mal lhe acompanhavam exibindo apenas uma tênue iluminação. Entretanto por onde Lami pisava ou tocava, a luz se espalhava e iluminava um pouco o caminho para então retornar ao cinza sombrio inicial.

   O vento fétido parecia soprar um pouco mais forte agora e à medida que caminhava, Lami tinha a impressão que olhos lhe acompanhavam na escuridão. As sequoias foram aos poucos dando lugar a arbustos pálidos e um conjunto desordenado de ciprestes, salgueiros e vinhas.  

   Mesmo sendo capaz de caminhar sem necessariamente tocar o chão, ela percebia que o piso ia ficando cada vez mais mole e traiçoeiro, o que lhe indicava estar bastante próxima de seu destino.

   Lami parou para escutar os sons daquele início de pântano. Nada. Apenas morte e uma sensação de congelar a alma. Aquele silêncio era pior do que qualquer ruído que pudesse haver, como se todo o local estivesse se fechando em uma prisão silenciosa. Novamente Lami sentiu-se tentada a abandonar sua demanda e fugir; sua luz diminuíra consideravelmente e por um instante fugaz ela acreditou que a perderia para sempre, tornando-se ela também uma criatura do caos. Essa talvez tenha sido a primeira vez que sentira medo verdadeiro e foi com extrema dificuldade que se impeliu a prosseguir.  

   A medida que penetrava no domínio da escuridão, Lami ia perdendo suas capacidades e forças. Agora ela já não mais flutuava, mas sim, estava a caminhar cautelosamente no solo pantanoso. Com nojo daquela água fétida ela procurava pisar em locais firmes. O problema era que as vezes nem sempre eram o que aparentavam ser, e ao pisar, afundava um pouco, não sem antes se assustar.

   Após tropeçar de forma desajeitada por várias vezes e se desviar por várias heras venenosas, Lami chegou a um enorme lago ladeado por árvores escuras de raízes suspensas e folhas caídas. A água tinha um tom prateado, e ladeando toda a região havia uma espécie de névoa negra. Ao invés de tom gasoso esta tinha aparência de uma seda pegajosa.

   A jovem percebeu que havia adentrado ao coração do Pântano e o que lhe restava agora era encontrar a tal criatura. Ela procurou, procurou, até que por fim divisou uma tênue luz vermelha em outro ponto da margem.

   Caminhando com o passo apressado ela decidiu seguir em direção ao tal ponto vermelho. Foi com enorme dificuldade que se locomoveu, pois seus pés afundavam muito nas margens do lago. Quando chegou próxima à luz vermelha, Lami logo compreendeu:

   A luz vermelha pertencia a uma alma errante. Às vezes, ao falecer os seres do mundo mundano entravam em um estado de confusão da alma permanecendo atormentadas. Em geral, as almas comuns possuíam colorações esverdeadas ou azuis, porém as conflituosas adquiriam essa coloração avermelhada. Por estarem desgarradas, são condenadas a vagar pelo Outro Lado sem poderem ascender aos céus ou nem mesmo decair ao Abismo, salvo quando são capturadas e escravizadas, permanecendo como entes sem propósito e sem esperança.

   É trabalho de alguns Encantados, como os espíritos da Luz, guiar esses pobres seres e trazê-los a algum rumo. Os que têm sorte são conduzidos ao Grande Tribunal onde adquirem a chance de redenção. Aqueles desafortunados podem ser escravizados e corrompidos, perder-se no Esquecimento ou até mesmo devorados.

   Isso era justamente o que estava prestes a acontecer; a essência da alma vermelha estava aos poucos sendo sugada por uma criatura que a princípio Lami não conseguia entender: à sua frente estava um ser horrendo e com corpo amorfo, com diversas e longas patas; nas suas costas havia longas espinhas e no que seria a cabeça, havia um enorme bico curvado quase semelhante a de um papagaio. A névoa negra a envolvia como uma película protetora.

   Lami finalmente encontrara a criatura da escuridão.

 

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