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Noite no Quarto

Olá a todos.

Para essa primeira postagem de fato escolhi um texto o qual faz parte do universo de Inocência. Em verdade é um pequeno conto que também serve como spin-off da história maior. Além disso foi uma espécie de auto desafio para criar uma história envolvendo apenas um ambiente e uma personagem. Se eu pudesse definir o “Noite no Quarto”, seria como um dos primeiros esboços para a história principal.

Esse texto foi escrito tanto em prosa quanto em formato de quadrinho (o qual está sendo produzido como uma espécie de piloto para os quadrinhos de Inocência).

Segue abaixo a versão em prosa:

NOTA: Se você deseja ler o quadrinho do Noite no Quarto, o conto abaixo conterá spoilers.

Boa leitura!


 

NOITE NO QUARTO

Ao abaixar a cabeça, Mina suspirou.

            O gosto daquele medicamento era muito ruim e lhe deixava enjoada. Mesmo assim tinha de toma-lo como havia lhe dito o seu psiquiatra senão as consequências seriam piores.

            Então levantou o olhar e se mirou no espelho do grande banheiro em que se encontrava: o que viu na imagem refletida foi uma menina magra por volta de quinze anos, cabelos castanhos claros e desalinhados a cair pelos ombros e brilhantes olhos verdes que agora denotavam extremo cansaço e desânimo. Estava vestida de um pijama rosa um pouco velho.

            Novo suspiro. Geralmente os seus dias eram difíceis, porém ultimamente eles vinham sendo ainda piores. No colégio não lhe deixavam em paz; eram sempre os dizeres maldosos, as bolinhas de papel e até mesmo agressões físicas. Como odiava tudo isso!

            Enquanto se olhava no espelho, Mina sentiu um estremecimento a percorrer o seu corpo. O lugar era bastante amplo, afinal servia para atender a um dormitório feminino. Era disposto de uma grande pia e um espelho um tanto encardido que ia de uma parede a outra. Ao lado oposto ficavam os boxes para os sanitários e finalmente na outra extremidade situavam-se os chuveiros. Geralmente era um local movimentado, mas àquela hora da noite nenhum som era audível e, do mesmo jeito que um local pequeno seria sufocante, aquele grande ambiente também o era.

            Era hora de voltar ao seu quarto. Ao fechar a tampa do remédio, este emitiu um som de “clac” alto demais para o seu gosto. Sentiu como se o som estivesse a ecoar por todo o local. Ela parou por um instante, atenta a qualquer outro ruído que pudesse vir em resposta, mas o único barulho que agora ouvia era um longínquo grilo que começara a cantar naquele exato momento.

            Se o banheiro continha aquela aparência lúgubre, o corredor era ainda pior. Os quartos eram dispostos em ambos os lados do vão o que não deixava espaço para iluminação externa. Assim, a sensação que se tinha era que havia um denso abismo negro à frente.

            Para não dizer que o local estava na escuridão completa, havia uma fraca luz de penumbra um tanto mais a frente, proveniente das escadarias. Outra fonte de iluminação era o próprio banheiro com a sua luz ainda acesa. Quando a desligasse, ficaria quase na completa escuridão.

            E assim fez Mina. Ao deixar o banheiro escuro, tratou logo de apertar o interruptor das luzes do corredor… as quais não acenderam para a sua angústia.

            “Droga!”, pensou Mina. “Me esqueci que ainda não consertaram isso!”

            Ela se virou novamente para a penumbra à frente. Seu quarto não ficava tão distante assim, mas atravessar aquela quase escuridão completa lhe sufocava. Era como se houvesse algo nas sombras a espreita. Mina arriscou um, dois, três passos. Seus pés pareciam feitos de chumbo. A cada passada podia sentir um arrepio a percorrer sua nuca até o fim da espinha. Podia sentir aquela coisa, seja lá o que fosse próxima a si. Podia senti-la quase a lhe tocar.

             Estava tremendo e suando frio. A garota tentou dar mais alguns passos, mas parou subitamente sentindo-se sufocada automaticamente levando uma das mãos ao pescoço. Mina tentou esboçar algum som, mas só conseguiu balbuciar algo inaudível.

             Repentinamente, ela soltou um grito sufocado e, vendo-se por um momento livre daquele aperto, desatou a correr de forma desajeitada até que por fim parou arquejante em frente a uma porta.

             Mina precisou de um tempo para poder recuperar o fôlego. Seu coração parecia que ia explodir e os sons das batidas pareciam ecoar por todo o corredor. Depois que se recompôs, não pôde de deixar de esboçar um leve sorriso: havia parado em frente a sua própria porta, facilmente reconhecível pelo número 306 e pelas várias inscrições nela como “NÃO BATA, AQUI MORA UMA PERTURBADA”, e “CAI FORA ANORMAL”, sendo esta última a mais recente.

             Emitindo um novo suspiro, desta vez de alívio, Mina abriu a porta. Suas mãos ainda tremiam, mas ao menos sabia que estaria livre daquela sombra esquisita. Ao ver os dizeres em sua porta o sentimento de alívio deu lugar à tristeza. Se no colégio era um problema, no dormitório feminino não era melhor. Sua aparência franzina e jeito desengonçado não a ajudavam em nada. E para piorar havia estas sombras a lhe perseguir constantemente não importasse onde estivesse. Por várias vezes fora pegue falando sozinha ou fugindo de algo que os outros não viam. O resultado eram várias zombarias e piadas.

             Ao entrar em seu quarto, ela se sentiu mais segura. Finalmente estava em seu ninho. Também tivera sorte; por várias vezes em seus ataques de pânico errava os quartos o que lhe rendia ainda mais chateações por parte das outras garotas.

             O recinto era pequeno, mas para os padrões de Mina era uma verdadeira suíte. Havia um grande armário de madeira velha; uma escrivaninha; uma cadeira também de madeira; um criado-mudo; e uma pequena lixeira além é claro dos seus parcos pertences. Uma fraca iluminação vinda da rua penetrava pela janela.

           Na verdade em relação ao quarto a garota sentia-se afortunada, pois normalmente o local servia para duas hóspedes, entretanto por algum motivo Mina fora posta para morar só, sendo assim, havia apenas uma cama e o lugar em si era só seu.

           Cansada como estava, seu único pensamento era o de cair na cama e tentar dormir, mesmo sabendo que aquilo seria uma tarefa difícil. Por isso, pousou os remédios em cima do criado-mudo; e, já deitada, esticou a mão para um dos seus objetos mais preciosos: um abajur. Ela nunca dormia com a luz desligada.

            Mina ouviu o “click” do abajur, mas nada aconteceu. Novo puxão, e nada. Ela solevou-se preocupada e puxou a cordinha várias vezes. “Por que não liga? Vamos, ligue!”, indagou-se em pensamento. E por várias vezes ouviu o som da corda, desapontando-se a cada vez que o luz do abajur não acendia.

            E uma vez mais ela começou a ceder ao desespero. Mina levantou-se por completo e tratou de desmontar o aparelho, tornando-o a montá-lo de novo. Nova tentativa e nova falha.

            “Por quê? O que está havendo? Não pode ser falta de energia. Será que quebrou?”, pensou enquanto caminhava em direção à porta. “Ainda tem a luz do quarto. Tem que dar certo, tem que dar!”

            Temerosa, Mina respirou fundo antes de apertar o botão. Totalmente trêmulo, seu dedo apertou com dificuldade o botão do interruptor. Porém assim como o abajur, não houve nenhum resultado. Sem conseguir acreditar no que estava havendo ela o apertou por diversas vezes.

            “Liga, liga, liga, vamos!”

            Em um arroubo de desespero seu único pensamento era sair dali. Sempre gostara de seu quarto, mas contato que houvesse luz para dormir. Desde pequena que tinha medo da escuridão e jamais conseguira se acostumar a isso. Sentia um medo indescritível, totalmente irracional.

            Completamente em pânico, Mina procurou abrir a porta a fim de sair dali. Quão então não foi a sua surpresa ao descobrir que a mesma encontrava-se trancada!

            Tentou empurrar e puxar a maçaneta de todas as formas possíveis. Sua mente estava em um completo turbilhão caótico; já não conseguia pensar em mais nada, exceto no desejo louco de escapar daquele confinamento.

            E quando deu por si, estava a berrar e a bater na porta com todas as suas forças.

            – ABRE, ABRE, POR FAVOR! NÃO ME DEIXEM AQUI PRESA! POR FAVOR, ABRE! ISSO NÃO TEM GRAÇA! – berrava a plenos pulmões.

            Tanto bateu que em um dado momento sua mão direita atingiu a madeira da porta de mau jeito fazendo-lhe soltar um “AI” de dor. Cansada e suando bastante, Mina voltou a si e deslizou de costas para a porta pondo-se a sentar desajeitadamente no chão, dando-se por vencida.

            Por um instante pensou que fosse uma peça pregada pelas outras garotas. Não seria a primeira vez que lhe trancaram em um quarto, mas por outro lado, a situação era totalmente diferente. Sua mente trabalhava rápido tentando racionalizar: no caso apenas barricaram algumas cadeiras do outro lado para que a porta não se abrisse. E mesmo que por um acaso alguém houvesse roubado a chave reserva na administração, como explicar a falta de luz? Mina sabia que se alguma de suas atormentadoras tivesse entrado no quarto, ela faria algo mais direto e explícito, como riscar a sua parede ou atirar alguns de seus pertences pela janela. Não, não foram as garotas.

            Então enterrou a cabeça entre as pernas e permaneceu por alguns um longo momento sem esboçar uma única reação. O único som que se ouvia era o de sua respiração arquejante. Uma fina fumaça saía de sua boca a cada respiração.

            Gotas de lágrimas vertiam de seus olhos. Mina apertou-se com força, forçando as unhas a enterrar na carne, o que lhe fez lembrar-se da dor na mão e da realidade. Com a mão boa enxugou as lágrimas e tratou de se levantar.

            Se não podia ter luz dentro do quarto ao menos poderia respirar um pouco do ar noturno e ter um pouco da iluminação de fora. Por isso caminhou lentamente em direção à janela a qual estava coberta por uma estranha luz de um verde doentio. A garota não sabia que luz era aquela, mas tampouco se importava.

            A janela estava fechada, então Mina afastou um pouco mais as cortinas e se posicionou de modo a abri-la. Fez força com a mão boa, mas não conseguiu. Trincando os dentes, a garota certificou-se de que tranca estava aberta. Procurou fazer uma nova tentativa e mais uma vez sem sucesso. Desta vez sem se importar com a mão machucada, exerceu mais força para empurrar a janela e ainda assim esta não se abria!

            “Não!”, foi o seu único pensamento. Por um breve instante tivera aquela pontada de esperança.

            Frente a esse novo fracasso, Mina deixou-se cair na cama. Já não conseguia pensar em mais nada; nem mesmo vontade tinha de experimentar a pequena luminária da sua escrivaninha ou o seu celular, pois sabia que resultaria em novo fracasso e sua cota já estava cheia deles. Agora tinha a plena certeza que não foram as meninas. Era algo pior, bem pior. Sabia muito bem o que viria a seguir e que não gostaria nada disso.

            O tempo parecia passar bem devagar. Ainda estava suando e a cada gota que pingava de sua testa era como se uma hora houvesse passado. “Eles” não tardariam a vir, podia senti-lo em si e no ambiente. Também podia sentir aquela sombra do corredor ali dentro. De alguma forma a coisa lhe enganara e conseguira entrar.

            De súbito ergueu-se de um pulo da cama e movimentou-se de costas para a parede. Finalmente “eles” chegaram. Abaixo de si parecia que o piso se mexia. Ao olhar para frente, a impressão era que todo o ambiente se contorcia e retorcia. Atrás de si a parede recuou fazendo-a se desequilibrar e cair sentada no chão. Tudo escureceu de repente. Mina sentia-se como se estivesse perdendo a si mesma. Agora a fumaça saía intensa de sua boca a cada respiração.

            Procurou tatear algo no escuro, mas estava totalmente às cegas. Finalmente encontrou algo sólido em que pudesse se apoiar. Quando descobriu o que era, sabia que se visse o seu rosto, veria uma expressão de completo horror.

            – Não, isso não! – falou desesperadamente.

            Mina estava apoiada em uma bancada de madeira. Ela sabia perfeitamente que bancada era essa e o local em que se encontrava. Também sabia que teria que continuar pois era impelida a isso.

            As bancadas deram espaço a outras do mesmo tipo. Uma fraca luz proveniente de três pequenos pontos luminosos era o suficiente para clarear um pouco mais a visão, mesmo estando muitos metros à frente. Em verdade era como se fosse centenas de bancadas dispostas lado a lado, formando um corredor entre elas e com Mina ao meio.

            Andou lentamente, apoiando-se com cuidado a cada bancada. O local estava bastante frio e seus pés estavam descalços.

            “Não, por favor, não.”, pensava constantemente.

            Assim que chegou aos três pontos, descobriu tratar-se de um castiçal com três velas. Ao lado deste havia um crucifixo que poderia ser de prata, mas que era difícil de discernir uma vez que o mesmo estava embevecido em sangue. Mina conhecia ambos objetos e por isso olhou-os com profundo asco.

            – Não fui eu. – disse alto. – O que querem de mim?

            Não houve resposta.

            – O que querem de mim?! – desta vez mais alto.

            Desta vez só uma fina brisa começou a soprar, fazendo as chamas tremularem.

            – ME RESPONDAM DE UMA VEZ! O QUE VOCÊS QUEREM DE MIM?! – gritou a plenos pulmões.

            E as chamas se apagaram.

            Mina recuou alguns passos até tropeçar em algo. Ela apalpou o objeto e sentiu algo pegajoso a percorrer as suas mãos. Subitamente fez-se o clarão: ao seu redor um grande incêndio se iniciara com as chamas a irromper de todos os lugares. Parecia-lhe que formavam anjos com espadas flamejantes procurando lhe cercar. Olhou para as suas mãos e descobriu que a substância pegajosa era sangue.

            Em total horror, Mina ajoelhou-se e levou as mãos ao rosto, manchando-se.

            – Não pode ser. Não fui eu. Saiam daqui e me deixem em paz! – implorou enquanto deslizava as mãos para os olhos. O objeto o qual havia tropeçado era um corpo. Ela não queria ver de quem era. Não lhe importava.

            Então se fez o silêncio. Quando descobriu o rosto, Mina percebeu que estava de volta ao seu quarto. Todo o resto havia sumido incluindo o sangue. E ainda assim estava a tremer, pois em seu íntimo tinha a certeza que não havia acabado.

            Como em resposta a seus pensamentos, ela primeiro os ouviu baixo, mas depois o som foi aumentando. Eram risadas, muitas risadas de pessoas diferentes: crianças, jovens e adultos em um fragor crescente. E com eles as sombras vieram, preenchendo o quarto.

            De onde estava Mina encolheu-se procurando tapar os ouvidos. Sua cabeça parecia que ia explodir de tanta dor com aquela barulheira. O turbilhão estava se mexendo novamente e ganhando velocidade.

            – Parem com isso! Calem a boca! – implorou com voz chorosa.

            Tudo o que conseguiu foi que as risadas aumentassem de intensidade. As sombras foram se moldando até formar rostos de pessoas conhecidas e desconhecidas.

            – Parem, eu lhes imploro! Não aguento mais!

            E o quarto pareceu crescer de tamanho novamente. Todos estavam ali, aquelas pessoas odiosas que tanto lhe faziam mal. Rostos de pessoas que sabia que um dia lhe fariam mal. Estavam rindo freneticamente.

            Mina sentia-se como se estivesse despida sob a luz de holofotes em meio a uma multidão. Quão não foi o seu desespero ao descobrir que de fato estava nua em meio àquelas faces de fumaça negra. Imediatamente, envergonhada, tentou cobrir-se com as mãos. Aquilo era mais do que podia aguentar. Sabia que estavam rindo não apenas por estar sem roupa, mas também porque ela era uma fraca e ridícula. Sabia que merecia tudo aquilo. A culpa era dela sempre.

            Alguma voz sobressaia sobre os risos. De início estava tão baixo que Mina não conseguia ouvir, mas logo foi ganhando força e quando percebeu era ela mesmo que estava gritando:

            – CALEM ESSAS MALDITAS BOCAS DE UMA VEZ! EU JÁ NÃO AGUENTO MAIS!

            Seus dentes chocavam-se um com os outros e chegara a morder os lábios até verter sangue. O quarto esfriara bastante a ponto de fazê-la tiritar de frio. Aparentemente as vozes foram embora e suas roupas voltaram. Mina se levantou e tornou a sentar na cama a qual estava tão fria quanto o quarto.

            – Está vendo? Eles estão rindo da quão ridícula você é minha querida. – disse uma suave voz feminina ao seu ouvido.

            Mina congelou e não foi do frio. Não precisava se virar para saber de quem era a voz. Sentira-a em suas costas a lhe tocar os ombros. Ela tinha certeza que a mesma apareceria cedo ou tarde. Desta vez fora tarde.

            – Você demorou – respondeu friamente.

            – Não, você que demorou a me chamar, meu amor. – rebateu a Voz.

            Mina nada tinha a responder daquilo. Até onde tinha consciência, a Voz sempre lhe acompanhara sussurrando coisas em seu ouvido. À medida que crescia, parecia-lhe que a Voz ia ganhando força, como se estivesse a lhe dominar pouco a pouco.

            – Você demorou – repetiu Mina agarrando-se ao travesseiro com força.

            – Me perdoe querida, mas, repito que foi você quem demorou a me chamar – respondeu novamente a Voz. – Do que tem medo? Você sabe que precisa de mim. Basta se entregar de vez.

            – Mas… eu não quero – Mina respondeu com voz amuada.

            – Você precisa.

            – Não quero.

            – Você precisa – insistiu a Voz.

            – Eu…

            Neste momento, Mina fechou os olhos, largou o travesseiro, colocou a mão boa na cabeça e, virando-se abruptamente gritou:

            – NÃO QUERO! EU JÁ NÃO AGUENTO MAIS! QUERO SAIR DAQUI! ME DEIXE SAIR E VÁ EMBORA!

            E sua voz perdeu-se entre as paredes do quarto. A outra voz silenciara por completo.

            Como por encanto, uma vez mais as paredes começaram a oscilar e parecia à Mina que elas estavam ainda mais escuras e maiores que antes. E com o efeito das paredes, vieram as risadas, desta vez em um tom absurdamente alto.

            Mina se encolheu na cama. Ela sabia o porquê daquelas pessoas rirem. Elas riam de sua inferioridade, de sua falta de valor perante elas. Por mais que tentasse, jamais seria alguém como aquelas pessoas. Deveria sempre se arrastar submissa a elas.

            – Vão embora! Deixem-me em paz. Onde está você? Não suma, volte! Eu preciso de você! – implorou Mina com a voz esganiçada.

            As gargalhadas continuavam. Mina não sabia mais o que fazer a não ser ficar encolhida em seu canto. Parecia-lhe que entre as risadas, havia vozes acusadoras. Na mente da garota, soavam como “Assassina, assassina, assassina”. Ela já não conseguia nem mesmo chorar, estando completamente à mercê da noite. No fundo, tinha consciência que precisava daquela que lhe falara momentos antes. Era como uma droga inebriante; odiava e ao mesmo tempo precisava constantemente dela.

            – Assassina! Assassina! – acusavam agora as vozes.

            E em meio a esse cântico acusador, a Voz se fez ouvir mais alto que as demais:

            – Me chamou, minha querida?

            – Faça eles pararem, por favor! – pediu Mina.

            – Você sabe muito bem que eles não irão parar.

            – Eu preciso de você!

            – E eu de você.

            – Então me ajude!

            – Já o estou fazendo. Essa é minha ajuda.

            – Mas… mas…

            – Ouça querida, você sabe que é preciso.

            – Sei, mas tenho medo, tanto medo. Eu não gosto.

            – Eu também não, mas é o único jeito.

            Mina baixou a cabeça e levou uma das mãos a um dos ombros. No caminho encontrou uma mão. O toque era gélido, mas ainda assim acolhedor. Em um movimento lento, ela puxou para si aquela que estava às suas costas fazendo-a lhe abraçar em um aperto carinhoso.

            – Eu, sei – Mina disse por fim.

            – Não se preocupe – sussurrou a voz em seu ouvido, com a boca quase colada à sua orelha. – Eu estou aqui e sempre estarei com você. – E dito isso, a Voz levou a mão aos lábios de Mina, limpando o sangue de quando mordera os lábios, passando o mesmo em sua própria boca.

            De repente os risos aumentaram novamente. A sombra voltara a partir de formas escuras que surgiram das bocas dos rostos ao redor do quarto, preenchendo o mesmo. Ela era um misto de fumaça e substância viscosa, negra e com alguns tons em verde.

            Mina estava paralisada como uma presa hipnotizada por uma cobra. Agarrava o travesseiro com força, da mesma forma que fizera antes. Podia sentir a sombra subindo pela cama e também descendo do teto. Era mais que uma? Mais sombras surgiram e foram preenchendo Mina, lhe prendendo à cama. E assim presa ela estava, presa àquelas risadas que ainda não haviam parado; tampouco às acusações. Presa ela estava aos seus demônios interiores, quando nem mesmo gritar ela conseguia mais. Com o terror a preencher sua face, seus olhos viam o inexplicável e procuravam resposta para aquilo.

            As sombras cobriam tudo. Sombras que sempre estiveram junto dela tal qual a Voz. Eram sombras do seu passado obscuro do qual ela não consegue se lembrar; sombras de sua vida presente, humilhada por todos e desprezada; e as sombras do futuro, incerto e imprevisível. Horror, terror, tristeza, medo, raiva, ódio. Todos aqueles sentimentos passavam por sua cabeça e giravam em sua mente. O turbilhão agora estava girando de forma furiosa e completamente caótica.

            E ao mesmo tempo, a Voz em tom suave, lhe sussurrava palavras que atiçavam cada um destes sentimentos. Até que por fim, as trevas cobriram tudo por completo e nada restou a não ser o vazio do escuro absoluto.

 


 

Mina abriu os olhos sentindo o calor em sua face. Piscando confusa, levantou-se e descobriu que já era manhã; a luz do sol lhe acordara.

            Ela balançou a cabeça procurando espantar qualquer sinal de sonolência restante. Em seu estupor, levou alguns segundos para notar um fato curioso: a janela estava aberta.

            Ao olhar para o outro lado viu que o abajur também estava aceso como sempre fazia.

            Ainda aturdida pelo frio matinal e pelas duas descobertas, Mina puxou a cordinha do abajur desligando-o e em seguida a puxou novamente fazendo o aparelho ligar.

            O raciocínio lhe voltara à mente. Ela tivera um pesadelo!

            A brisa matinal soava fresca e era um alívio senti-la. Olhando a paisagem de sua janela, o rosto de Mina denotava cansaço e frustração. Ela simplesmente não aguentava mais ter que passar por sonhos ruins por quase toda a noite, mesmo não se lembrando de boa parte deles. O que Mina queria era viver, apenas viver em paz.

            Suspirou alto. Era mais um dia que iria começar o que não a deixava nem um pouco feliz. Pelo menos, os fatos da noite passada não aconteceram de verdade.

            Estava nesses pensamentos quando sentiu uma pontada de dor. Mina procurou a fonte da mesma e o que viu novamente fez com que o horror dominasse a sua face.

            Sua mão direita estava roxa e inchada.

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